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Novo relatório internacional contraria dados do Ipea sobre desigualdade no país
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Novo relatório internacional contraria dados do Ipea sobre desigualdade no país
O debate sobre desigualdade no Brasil voltou ao centro das atenções após a divulgação de dois estudos recentes que apresentam leituras opostas sobre a evolução da renda no país. De um lado, o World Inequality Report 2026, lançado nesta quarta-feira (10/12), aponta que a concentração de renda nas mãos dos mais ricos aumentou na última década. De outro, uma nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) afirma que a desigualdade brasileira atingiu, em 2024, o menor patamar em 30 anos.
O relatório internacional, produzido por um grupo de economistas que inclui o francês Thomas Piketty, conclui que o Brasil se tornou “ligeiramente mais desigual” entre 2014 e 2024, e segue entre os países com maior concentração de renda no mundo. A publicação contrasta diretamente com o estudo do Ipea, celebrado pelo governo Lula e amplamente repercutido por autoridades federais.
Segundo a análise do instituto, houve forte avanço da renda entre os mais pobres, redução expressiva da pobreza e melhora significativa no índice de Gini, que teria recuado quase 18% em três décadas. Porém, a metodologia utilizada (baseada exclusivamente nos dados de pesquisas domiciliares do IBGE) gerou controvérsia entre especialistas, que afirmam que esse tipo de levantamento não capta adequadamente a renda dos mais ricos.
Metodologias distintas, conclusões incompatíveis
A divergência central está na base de dados utilizada por cada estudo.
Enquanto o Ipea trabalha apenas com informações da Pnad, pesquisa por amostragem realizada pelo IBGE, o relatório global combina esses dados com registros da Receita Federal, considerados mais adequados para identificar ganhos de capital e rendimentos do topo da pirâmide.
Pesquisadores consultados pela BBC News Brasil afirmam que pesquisas domiciliares tendem a subestimar rendimentos, especialmente entre os mais ricos, cuja renda vem majoritariamente de aplicações financeiras e operações de capital, não captadas com precisão nas entrevistas. Os próprios autores da nota técnica do Ipea reconhecem essas limitações.
O sociólogo Pedro Herculano de Souza, referência no estudo da desigualdade e autor do material do Ipea, justificou a opção por não usar os dados tributários devido à defasagem das informações disponíveis no início da pesquisa. Ele afirma que o objetivo era analisar a dinâmica pós-pandemia, e os números da Pnad estavam mais atualizados para esse período.
O que dizem os números internacionais
No relatório global, a fatia da renda nacional controlada pelos 10% mais ricos oscilou, mas manteve tendência de alta ao longo da última década: subiu de 57,9% em 2014 para 59,9% em 2021, recuando levemente para 59,1% em 2024. Já a participação dos 50% mais pobres caiu de 10,7% para 8,2% no auge da pandemia e voltou a 9,3% em 2024.
Com isso, o indicador que divide a renda dos 10% mais ricos pela dos 50% mais pobres avançou de 53,7 para 63,5 em dez anos — sinalizando aumento da desigualdade. O pico ocorreu em 2021, quando o índice chegou a 73.
Os economistas do World Inequality Lab defendem que apenas a combinação entre dados domiciliares e tributários revela o tamanho real da concentração de renda no país.
Estudo do Ipea foi celebrado pelo governo, mas gerou reações
A nota técnica do Ipea ganhou grande repercussão no governo. O presidente Lula exaltou o resultado, afirmando que o país vive uma nova fase de redução da desigualdade, acompanhada pela queda da pobreza e pela saída do Brasil do mapa da fome segundo dados da FAO.
A visita dos pesquisadores ao Palácio do Planalto reforçou o simbolismo da publicação, que rapidamente se tornou referência em discursos oficiais.
Porém, especialistas apontam que, embora os avanços no combate à pobreza sejam consenso, a conclusão de que a desigualdade brasileira atingiu o menor nível em três décadas deveria ser tratada com cautela, justamente pela ausência dos dados tributários, essenciais para medir o topo da distribuição de renda.
Rumos da desigualdade ainda estão em disputa
O próprio Pedro Souza destaca que, apesar de ser defensor do uso de dados da Receita, as séries tributárias também precisam de aperfeiçoamentos e podem sofrer distorções em períodos de mudanças fiscais, como as observadas durante a pandemia.
Ele afirma que pretende atualizar suas conclusões quando números mais recentes de Imposto de Renda estiverem disponíveis e defende maior transparência na divulgação das informações pela Receita Federal.
Assim, enquanto o governo celebra avanços, o debate acadêmico segue aberto e a desigualdade no Brasil permanece um tema complexo, cuja interpretação depende diretamente da qualidade e da abrangência das bases de dados utilizadas.
Fonte: BBC News Brasil
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